Pré-históricos - ARQUEOPTERIX - Primeira ave

Há 140 milhões de anos uma ave carnívora com um  metro de comprimento e provavelmente pesando em torno de três a quatro quilos, viveu nas terras que hoje formam o continente europeu. O primeiro fóssil desse animal pré-histórico foi descoberto na década de 1850 no sul da Alemanha, em uma região calcária que se estende ao longo das margens de pequenos rios, passando por cidades como Solnhofen, Schernfeld e Eichstätt. Até mesmo áreas um pouco mais afastadas desse sítio, e com camadas um pouco menos antigas, como os afloramentos em Daiting, à beira do rio Ussel, são comumente incorporadas aos depósitos de Solnhofen, conhecidos por mais de 200 anos.

 

Nessa região foram descobertos os restos fossilizados do Archaeopteryx lithographica, ou simplesmente arqueopterix, que além de ser a ave mais primitiva de que se tem notícia, é também, e sem dúvida, um dos fósseis mais surpreendentes já encontrados. Ela possuía um esqueleto similar ao Compsagnat, um dos menores dinossauros conhecidos até hoje (tinha 74cm de comprimento), razão pela qual foi inicialmente confundido com ele. Porém, pesquisas mais detalhadas realizadas posteriormente verificaram que ao contrário do que se imaginava, o esqueleto em estudo mostrava diferenças significativas em relação à outra criatura, como a existência de dentes, garras, penas e asas, o que levou os cientistas à conclusão de que certamente estavam diante dos restos de um exemplar da primeira espécie de ave que se extinguiu no mundo.

 

O Arqueopterix, cujo nome científico significa asa antiga gravada na pedra, era carnívoro, tinha um rabo longo e com ossos, como se fosse um pequeno dinossauro; possuía nas asas dois ou três pequenos prolongamentos semelhantes a dedos, equipados com garras afiadas e curvas que lhes serviam para que pudesse agarrar-se no tronco e galhos das árvores em que pretendia subir. No bico, que funcionava tal como duas mandíbulas poderosas, dentes pequenos e afiados cortavam e retiravam de suas presas a carne com que ele se alimentava. No entanto, o que mais surpreendeu os pesquisadores foi a constatação da presença de claras impressões de penas ao redor do fóssil encravado na pedra calcária, razão pela qual lhe deram o nome com que se tornou conhecido.  

 

Quando Charles Darwin, em 1859, publicou o seu livro Origem das Espécies, no qual apresentava a Teoria da Evolução, base de toda a biologia moderna, uma das objeções levantadas contra sua obra era a ausência de formas de transição no registro fóssil, ou seja, exemplares de achados fósseis que comprovassem de forma indiscutível a evolução de um grande grupo de animais para outro. Diversos textos procuram tornar mais claro esse período de indefinição, de aceitação ou não aceitação da teoria darwiana, e uma delas, publicada em www.direitodosanimais.com, assevera que para apoiar o pensamento revolucionário do autor faltava uma prova que a natureza acabaria por lhe proporcionar sob a forma de um magnífico fóssil. Cerca de dois anos após o lançamento de A Origem das Espécies descobriu-se em Solnhofen, na Alemanha uma extraordinária relíquia de caracteres ambíguos, a que se deu o nome de arqueopterix. Diante do achado de uma pena originária do período Jurássico, que ficara para trás cerca de 140 milhões de anos, concluiu-se que o fóssil apresentava características de duas espécies animais diferentes, e por isso ele adquiriu importância especial porque passou a ser considerado como o elo perdido entre os pássaros e os pequenos dinossauros carnívoros.

 

Se por um lado o arqueopterix possuía penas e musculatura igual à das aves, por outro era provido de garras, cauda e dentes pontudos que lembravam um dinossauro. Pesquisas mais recentes comprovaram que ele tinha, realmente, condição de voar, embora seu esqueleto fosse mais pesado que o dos pássaros modernos, mas não se sabe ao certo se conseguia fazê-lo com facilidade, e em caso positivo, qual a distância que venceria normalmente. O que se aceita como mais provável é que ele seguia seu caminho pulando de galho em galho da mesma forma como as galinhas fazem atualmente quando se assustam e pretendem escapar de alguma coisa: batem as asas e voam dois ou três metros. Ou então se atirava do alto de uma árvore e descia planando até o chão, tranqüilamente, caçando ao longo do trajeto aéreo os insetos que encontrava pela frente.

 

Sobre o mesmo assunto o texto mencionado acima diz que “A descoberta deste fóssil meio-réptil, meio-ave, ganhava o valor de um acontecimento retumbante, de conseqüências enormes para o desenvolvimento do pensamento científico: era a prova irrefutável de que as espécies nascem efetivamente umas das outras. Este animal intermédio que não perdera ainda os seus caracteres de réptil, mas apresentava já os traços de uma ave, era a resposta aos sonhos de Darwin. (...) Possuía, com efeito, uma cabeça de lagarto, e os seus dentes cônicos implantados em alvéolos recordavam em tudo os dos crocodilos atuais. Dos répteis, o arqueopterix tinha ainda uma comprida cauda constituída por vinte vértebras, e a sua bacia era também de ‘concepção’ indiscutivelmente reptiliana. Em contrapartida, malgrado a presença no antebraço de dedos munidos de garras, a ossatura da asa aproximava-se da que encontramos nas aves. Quanto ao corpo, e isto se vê sem margem para dúvidas na impressão deixada no sedimento, era completamente coberto de penas. A anatomia deste animal permite-nos pensar que voava de forma bastante desajeitada: as asas arredondadas e a comprida cauda aberta em leque fazem dele uma espécie de planador que, tudo indica, devia lançar-se do alto das árvores ou dos penhascos para percorrer curtos trajetos. (...). A configuração do esqueleto torna lícito imaginar que uma vez no solo, o arqueopterix era capaz de correr graças às patas bem desenvolvidas, e quando queria fazer um vôo planado começava por trepar numa árvore, servindo-se para isso das asas munidas de garras”.

 

“Conhecemos relativamente bem a anatomia do arqueopterix, do qual possuímos hoje três espécimes (o último foi descoberto na mesma região que o primeiro, em 1956); mas no que respeita à sua origem, estamos reduzidos a hipóteses. Infelizmente, não é possível ir muito mais longe: para nós, portanto, o reino das aves começa com o arqueopterix”.


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