E a H - FINS JUSTIFICAM OS MEIOS, OS

Natural de Florença, Nicolau Maquiavel (1469-1527), escritor, diplomata, administrador e pensador político italiano, tem em O Príncipe sua obra mais famosa. Escrita entre os anos de 1513 e 1516, mas publicada postumamente em 1532, ela reflete seus conhecimentos da arte política dos antigos, bem como dos estadistas de seu tempo, e expressa claramente a mentalidade que vigorava na época.

 

No texto desta obra, ao formular uma série de conselhos ao príncipe, o autor expõe uma norma de ação autoritária, no interesse do Estado, amparada no princípio de que “os fins justificam os meios”. As obras de Maquiavel, que incluem Sobre o Modo de se Tratar os Povos Rebelados de Val de Chiana, O Asno de Ouro, Histórias Florentinas e As Decenais, entre outras, além de canções e poesias diversas, foram a princípio bem recebidas pelo público, mas depois de incluídas no Index da Igreja Católica, tornaram-se motivo para críticas severas, sendo denegridas sistematicamente e consideradas como expressão máxima do cinismo político. Daí o surgimento de termos com sentido pejorativo, como maquiavélico, identificando o homem ardiloso, velhaco, e tratante, maquiavelismo, traduzindo deslealdade, perfídia e falsidade nos negócios públicos e particulares, e maquiavelista, ou político desleal, que continuam sendo empregados até hoje.

 

Na atualidade, a “ambição política” pode ser explicada como sendo o desejo de poder, de riquezas, de honras e glórias, enquanto nos tempos antigos a “atividade política” representava o processo de tomada de decisões relativas ao interesse público. A palavra “política” vem do grego polis (cidade-Estado), e Aristóteles a define como “um conjunto de famílias e pequenos burgos que se associam para desfrutarem juntos de uma existência inteiramente feliz e independente”. Segundo alguns autores, o “associam” presente nessa  frase não exprime bem a idéia de Aristóteles, porque, na verdade, a polis para ele era uma aglomeração natural, sem a qual não seria possível qualquer forma de vida humana civilizada. Durante a Idade Média, os direitos e garantias individuais eram afirmados (pelo menos indiretamente) na medida em que se considerava o homem como criatura de Deus, enquanto o Estado, autoridade política terrena, era visto como um mal necessário.

 

Nos tempos modernos, a explicação comum para a atividade política de representantes eleitos pelo voto popular, sejam eles governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, ou até mesmo o dirigente maior da nação, é quase sempre a de que ela não esconde a falta de dedicação ao interesse público, mal acobertando ambições pessoais e interesses de grupos. A origem dessa concepção pode ser observada no final da Idade Média e começou com Maquiavel, que ao cunhar a frase “os fins justificam os meios”, expôs claramente sua idéia sobre o que significa a política para a maior parte dos que a praticam, pensamento que contraria o princípio aristotélico de que a política é essencialmente unida à moral, porque a destinação do estado é a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. Para Aristóteles, o estado é superior ao indivíduo porque a coletividade é superior ao indivíduo, da mesma forma como o bem comum é superior ao bem particular.

 

Infelizmente, a recomendação de Nicolau Maquiavel tornou-se praticamente uma norma política no Brasil, porque praticada aberta e impunemente por seus seguidores. Porém, e por redundância, a expressão passou a ser empregada popularmente em todos os casos onde se pretende explicar a adoção de medidas ou providências tomadas por alguém ou por grupos que se beneficiam direta ou indiretamente das decisões que passam ao largo daquilo que é justo, decente, correto e até mesmo honesto.


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