E a H - GUARDADO A SETE CHAVES

O escritor Malba Tahan afirma em seu livro Os Números Governam o Mundo, que para os hebreus da Antigüidade e cristãos, o número sete era prestigiado como verdadeiro número sagrado, podendo ser encontradas na Bíblia muitas citações em que ele é destacado com essa força. Como no segundo capítulo do Gênesis, onde o versículo famoso diz o seguinte:  “2. E acabou Deus no dia  sexto a obra que tinha feito; e descansou no sétimo dia, depois de ter acabado todas as suas obras. 3. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nesse dia ele cessou de produzir todas as obras que havia criado”.

 

O número sete está presente em muitas tradições católicas, sendo as mais conhecidas delas as sete palavras de Cristo, os sete sacramentos, as sete glórias da Virgem, os sete pecados mortais e as sete petições do Padre-Nosso. No Alcorão, o livro sagrado dos maometanos, a II Surata, versículo 27, diz que “Criou Deus, para vós, tudo o que existe sobre a terra. Voltou-se a seguir para o céu e dividiu o céu em sete céus. Sua consciência abrange todas as coisas”. Na Surata LXVII, 3º versículo: “Foi Ele, Allah, que criou os sete céus colocados em ordem e harmonia, uns sobre os outros”.

 

Também na Antigüidade o número sete tinha a preferência de sacerdotes e sábios, pois sete eram os altares, sete as velas, sete os animais sacrificados, sete as palavras iniciais, sete os salmos penitenciais. E entre as coleções totalizando sete, estão os sete dias da semana, as sete maravilhas do mundo, as sete cores do arco-íris, os sete sábios da Grécia, as sete notas musicais, as sete colinas de Roma e as sete artes. Para os umbandistas existem sete reinos, sendo cada um dos povos de cada reino  comandado pelo seu respectivo exu-chefe, como o Exu Sete-Liras, Exu Sete-Pedras, Exu Sete-Encruzilhadas, e outros mais.

 

A imaginação popular sempre foi seduzida  pelo número  sete, daí seu uso corriqueiro em expressões que reforçam e enfatizam algumas situações (guardado a sete chaves), em lendas (após sete filhos homens o seguinte será lobisomem), no culto aos mortos (missa de sétimo dia), nas crendices (quem mata um gato tem sete anos de azar), na contagem do tempo (sete dias da semana), nos provérbios (o que é um boi para quem tem sete fazendas?) e outras mais. Por isso esse número mantém até hoje o mesmo sentido místico das palavras de Jesus ao responder a Pedro: “Não digo que até sete vezes, mas que até setenta vezes sete vezes”.

 

Apesar de todas essas considerações sobre o misticismo que envolve o número sete, vale registrar que o escritor Mário Prata fornece uma explicação bastante curiosa e interessante para a expressão “guardado a sete chaves”. Diz ele que no livro “O Chalaça - Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes”, romance de estréia do escritor José Roberto Torero, editado pela Companhia das Letras e premiado por quatro vezes, consta o seguinte trecho:  Chaves era o subordinado do Chalaça. Chalaça ficava responsável pela agenda do imperador, que era reservadÍssima. Tinha que ficar muito bem escondida. E todo dia, quando terminava o expediente no palácio, lá pelas sete da noite, Chalaça sempre lembrava ao Chaves: "Guardar às sete, Chaves".

 

Por sua vez, o folclorista e historiador Luiz da Câmara Cascudo assevera em seu livro “Locuções Tradicionais do Brasil”, que “as arcas de segredo destinadas a guardar documentos, ouro, jóias, desde o século 13 em Portugal, eram de madeira sólida e com quatro fechaduras de ferro”. Cada chave competia a um alto funcionário, às vezes o próprio rei pertencia ao número dos chaveiros, e sendo assim, a caixa só poderia ser aberta com a presença e colaboração dos quatro responsáveis. Para Câmara Cascudo, a menção às “sete chaves” revela uma precaução histórica inexistente, pois certa seria a referência às “quatro chaves”.


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