Período imperial - 1822 ? GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

Quando Dom João VI e sua corte retornaram a Portugal (26/04/1821), o Brasil ficou em situação desastrosa: o comércio quase paralisado, o Banco do Brasil à beira da falência, e algumas províncias se recusando a reconhecer a autoridade de Dom Pedro, que ficara como regente, propiciavam o surgimento de uma insatisfação popular que crescia a cada dia.

 

Com a convocação da primeira Assembléia Constituinte brasileira (03/06/1821), como forma de resistência à pressão das Cortes portuguesas no sentido de recolonizar o Brasil, Dom Pedro procurava manter uma justa igualdade de direitos com Portugal, “sem perturbar a paz, que tanto convém a ambos, e tão própria é de povos irmãos". Em outras palavras, o Brasil não desejava o isolamento, nem a guerra. Apenas não abria mão da condição de Reino Unido a que Dom João o elevara em 1815.

 

Mas as Cortes Portuguesas reagiram não só anulando o decreto regencial da convocação, como também depondo o príncipe e impondo seu regresso imediato a Portugal, sob pena de lhe retirarem o direito ao trono luso. No dia 07/09/1822, voltando de Santos, Dom Pedro encontrou-se às margens do riacho Ipiranga com o mensageiro que trazia cartas do reino, de José Bonifácio e de sua esposa, a princesa Leopoldina. Eram os decretos da Corte de Lisboa, acompanhados das súplicas da princesa e de José Bonifácio em favor da imediata realização da independência. O príncipe regente amarrotou os decretos, ordenou à sua comitiva que arrancasse os laços com as cores portuguesas que traziam nas mangas das túnicas, e lançou o grito histórico Independência ou Morte (ilustração acima, por Pedro Americo). 

 

Nessa época, chefiava as forças portuguesas na Bahia o general Inácio Luís Madeira de Melo (1775-1833), que acabara de receber reforços consideráveis. Para enfrentá-las, uma frota de barcos leves da marinha de guerra brasileira, comandada pelo almirante Rodrigo Antônio Delamare, partiu do Rio de Janeiro transportando tropas do general francês Pierre Labatut, a serviço do Império, com a missão de bloquear Salvador e dar fim à inquietude causada pelo jornal Constitucional, de Francisco Jê Acabaia de Montezuma (1794-1870), futuro visconde de Jequitinhonha, que denunciara a intenção dos portugueses em atacar os brasileiros. Desembarcando em Alagoas, Labatut submeteu Sergipe e avançou para a Bahia, derrotando por diversas vezes as tropas do general Madeira e sitiando a capital baiana.

 

Uma dessas batalhas foi a de Pirajá, ponto chave da defesa para a força brasileira. Por ela passava a tradicional estrada das Boiadas, ligando Salvador com o norte da Bahia, e sua posse representava para os patriotas o domínio da enseada de Itapagipe e o corte da entrada de víveres e de gado para o abastecimento da capital. O confronto aconteceu em 08/11/1822, quando todas as posições dos brasileiros foram atacadas por mar e por terra e submetidas a cinco horas de fogo incessante. Em seguida, quando os portugueses avançaram em acelerado, visando cortar a retaguarda dos patriotas, o major Barros Falcão, comandante brasileiro, mandou tocar a retirada, por lhe parecer insustentável a posição; mas o corneteiro Luís Lopes, desobedecendo às suas ordens, tocou avançar a cavalaria, e a seguir, degolar. Supondo que os brasileiros houvessem recebido algum reforço de cavalaria, os portugueses se puseram em fuga (na ilustração, general francês Pierre Labatut).  

 

O general Labatut (nomeado marechal-de-campo em 1839) continuou assediando a cidade de Salvador, diante da qual, em 01/05/1823 apareceu a esquadra comandada pelo almirante inglês lorde Cochrane, que viera do Chile ao Brasil a pedido do governo imperial. A discórdia reinante no exército levou à deposição de Labatut e sua substituição no comando por José Joaquim de Lima e Silva (1788-1855), tio do futuro duque de Caxias. Em 03/06/1823, o novo comandante ordenou um assalto geral a toda a linha inimiga, e apertou tanto o cerco na Bahia que o general Madeira de Melo achou por bem retirar-se com suas tropas para Portugal. Lorde Cochrane permitiu que os transportes lusos saíssem livremente pela barra à fora, mas os acompanhou até a foz do rio Tejo, no continente europeu, de onde navegou de volta diretamente para o Maranhão e tratou de ocupar São Luís, apreendendo todos os navios que se encontravam no porto e remetendo para o Reino os soldados e marinheiros lusos que se recusavam a servir ao Império brasileiro.

 

Do Maranhão o capitão inglês John Grenfell, que havia sido contratado em março de 1823 para servir na esquadra brasileira, foi designado por Cochrane para dirigir-se ao Pará, que se submeteu depois de alguma resistência. Em Belém ocorreu trágico incidente: irrompera uma sedição militar, e como Grenfell não dispusesse em terra de prisão segura para os responsáveis, recolheu-os ao porão do navio Diligente; dos 256 homens ali encerrados, apenas quatro escaparam da morte por asfixia.

 

Com a notícia das vitórias imperiais acontecidas no Norte, as tropas portuguesas aquarteladas na Província Cisplatina (nome dado ao território atualmente abrangido pelo Uruguai), então pertencendo ao Brasil, finalmente decidiram render-se. Eram 4.000 homens comandados por D. Álvaro da Costa Macedo, que entrincheirados em Montevidéu haviam resistido ao cerco imposto à cidade pelo general luso-brasileiro Carlos Frederico Lecor (1764-1836), mas como eles também se encontravam bloqueados por mar pela esquadra enviada por D. Pedro I, foram obrigadas à retirar-se para Portugal em novembro de 1823. No entanto, o governo do Rio de Janeiro, preocupado em reprimir as revoltas nas províncias do Norte, não pôde atender aos pedidos de reforços feitos por Lecor, que visavam, sobretudo, deter as insurreições que tinham como objetivo a independência daquela região. Por isso o Brasil acabou por perdê-la definitivamente em 1828.

 

O reconhecimento oficial da independência brasileira, por parte de Portugal, só aconteceu em agosto de 1825, graças à intervenção do governo inglês. Antes de concretizada essa aceitação formal, D. João VI exigia, para tanto, que lhe fosse paga uma indenização de dois milhões de libras esterlinas, e que lhe fosse dado o direito de utilizar o título de imperador do Brasil.


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