Período colonial - DIQUE DO TORORÓ - SÉCULO 18 - Salvador (BahIa)

O Dique do Tororó, ou simplesmente Dique, é uma lagoa artificial que embeleza e ameniza parte de uma das áreas centrais de Salvador, capital da Bahia. Atualmente ela é margeada pelas avenidas Vasco da Gama e Presidente Costa e Silva, e está encravada entre os bairros de Tororó, à sua esquerda; Engenho Velho do Brotas, à direita; estádio Otávio Mangabeira (mais conhecido como Fonte Nova), ao norte; e bairro do Garcia, ao sul. Mas nos tempos do Brasil colonial, determinava o limite norte da então capital do Brasil.

 

Sua história e longa e interessante. No início do século 17, época em que Portugal, então sob o domínio da Espanha, e a Holanda estavam em guerra, a Companhia das Índias Ocidentais, empresa holandesa que controlava os interesses mercantis do seu país, aproveitou-se da situação para enviar ao Brasil uma frota com 23 navios transportando 3.300 homens e 500 peças de artilharia, comandada por Jacob Willekeins, Pieter Heys e Johan Van Dorn, este último na chefia geral e nomeado governador das terras conquistadas. Quando esses navios chegaram a Salvador (09 de maio de 1624), os soldados holandeses desembarcaram praticamente sem encontrar resistência, pois ela só durou dois dias, apossaram-se rapidamente da cidade, saquearam-na tanto quanto possível, e ainda por cima aprisionaram o governador, dom Diogo de Mendonça Furtado. Em seguida trataram de fortalecer suas posições, preparando-se para a contra-ofensiva portuguesa.

 

A construção de um dique incluía-se entre medidas defensivas determinadas, para que a água nele represada pudesse impedir ou dificultar a resistência dos locais. Segundo alguns relatos, “a lagoa foi feita a pá e picaretas por escravos comandados pelos invasores holandeses, que pretendiam cercar o palácio Rio Branco com um fosso que o tornasse inacessível aos portugueses”. Este palácio, um dos primeiros construídos no Brasil, começou a ser erguido por determinação do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa (na área que hoje forma a praça que tem o seu nome), em meados do século 16, para ser o centro da administração portuguesa. No início era de taipa de pilão, recebendo posteriormente pequenas ampliações.

 

Terminado o serviço braçal as águas represadas estavam contornando a cidade desde o lugar escolhido pelos holandeses para uma fortificação.(construiu-se ali, em 1638, o forte de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou simplesmente Forte do Barbalho, localizado na atual rua Aristides Atico), até as trincheiras das Portas de São Bento (localizadas junto às muralhas da Cidade Alta, altura da atual praça Castro Alves), que na segunda metade do século 16 integravam a linha de fortificações erguidas para defesa da cidadela, mas desmoronadas provavelmente em 1632. Porém, em 29 de março de 1625, uma armada luso-espanhola com 52 navios, 14.000 homens e mil peças de artilharia, comandada pelos almirantes dom Manuel de Menezes, e dom Fradique de Toledo y Osório, chegou à baía de Todos os Santos, encurralando os holandeses no interior da cidade. Após quase trinta dias de cerco os invasores finalmente se renderam em 30 de abril, sendo-lhe permitido o retorno à Europa em suas embarcações.


Quase um século depois (1710-1711), quando o Rio de Janeiro foi invadido por corsários franceses, o Conselho Ultramarino português decidiu melhorar a defesa da cidade, já que pelo seu porto se embarcava para o reino o ouro extraído das minas no interior. Daí que por determinação do rei D. João V (1689-1750), cognominado O Magnânimo porque esbanjava os imensos tesouros que recebia do Brasil, o francês Jean Massé, Capitão de Engenheiros em seu país, foi incumbido, em 1714, de elaborar um projeto que melhorasse o sistema defensivo local. Alguns anos depois (1720), quando Vasco Fernandes César de Meneses, 1º Conde de Sabugosa, (1673-1741), assumiu o vice-reinado do Brasil, entregou a Massé a tarefa de engendrar algo que pudesse reforçar a defesa de Salvador, tendo este sugerido e depois orientado a construção de uma barragem cujas águas acumuladas em seu interior passassem a resguardar a então capital colonial de possíveis ataques feitos por terra.

 

Registros sobre o cinturão de água que primeiramente os holandeses haviam se dado ao trabalho de acumular atrás de um dique, para dificultar ou mesmo impedir qualquer tentativa de ataque por parte dos portugueses, esclarecem que depois dos trabalhos ali realizados o lago formado pela contenção do rio das Tripas alagou a região que começava onde hoje se encontra a Igreja de Sant’Ana do Rio Vermelho, estendendo-se até a Barroquinha, ou Baixa do Sapateiro. Ao lado deste foi construído no século 18, um prolongamento da barragem, um novo dique denominado Tororó, formado pelo represamento do rio Lucaia, que se estendia das proximidades do Campo Grande até a vizinhança do forte do Barbalho.

 

Posteriormente, em meados do século 18, o governo da província da Bahia construiu a rua da Vala, atual avenida José Joaquim Seabra, canalizando o rio das Tripas (cujo curso atual, em sua maior parte, corre agora em galerias subterrâneas) no trecho da Barroquinha, e fazendo desaparecer o antigo lago dos holandeses. Já o dique de Tororó foi sendo gradativamente aterrado a partir dos anos 40 do século 20, quando as primeiras avenidas que hoje cortam a região começaram a ser abertas, construindo-se depois, em área que antigamente era ocupada pelas águas do dique, o estádio Otávio Mangabeira, mais conhecido como estádio da Fonte Nova.

 

Para os adeptos do candomblé, o dique do Tororó é uma das moradas de seus orixás. Em razão disso, o artista plástico Tati Moreno fez oito esculturas dessas entidades, colocando-as dentro d’água, nas posições em que os filhos de santo, quando incorporados, costumam dançar nos terreiros de candomblé (ilustração acima).  São elas: Ogum (deus do ferro e da guerra); Oxossi (deus das matas e da caça). Xangô (deus dos raios e trovão); Oxalá (o pai de todos os orixás); Iemanjá (deusa do mar e mãe dos orixás); Oxum (deusa dos rios, lagos e fontes); Nana (a mais velha dos orixás); e Iansã (a deusa das guerras e das tempestades) No centro da roda existe uma fonte que lança um jato d’água a 40 metros de altura.

 

Nos tempos coloniais a população de Salvador tinha o costume de abastecer suas casas com a água retirada do dique. Vem dessa época uma quadrinha muito cantada pelas crianças de anos atrás, cujos versos diziam: "Eu fui no Tororó beber água e não achei. Encontrei linda morena que no Tororó deixei..."

 

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