Período colonial - 1555 - ROCHEDO DA RATOEIRA - Rio de Janeiro

A barra da baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, tem quase dois quilômetros de largura. No passado, ela foi protegida por três fortalezas colocadas em linha: a de Santa Cruz, em Niterói, São João, no território carioca, e da Laje, em uma ilhota de pedra com mais ou menos 100 metros de comprimento por 60 de largura, encravada no meio do canal de acesso ao porto. Apesar da aparente imprestabilidade, ela foi o palco onde ocorreram diversos incidentes durante o período colonial e imperial brasileiro, e por isso incorporou-se à nossa história.

 

A primeira menção a seu respeito foi feita por Nicolas Barré, piloto da expedição do almirante francês Nicolau Durand de Villeigagnon, que em 1555 pretendia instalar aqui a França Antártica. Falando da bateria instalada sobre le ratier rocher, ou rochedo da ratoeira, depois conhecido como ilha da Laje, ele publicou em Discours de Nicolas Barré sur la naviqation du Chevalier de Villegaignon em Amérique, 1557, que “no meio da referida entrada, que deve ter meia légua de largo, existe uma rocha de 100 pés de comprimento por 60 de largura, onde se levantou um forte de madeira. Ali assentou parte de sua artilharia para impedir que os inimigos viessem incomodá-lo. E como (o rochedo) se encontrava muito perto da entrada, aí instalamos duas peças de artilharia e alguns falconetes (peças de artilharia de menor tamanho). Mas o mar transbordou um dia, tão violentamente que jogou a artilharia e as balas para cima do alto do rochedo, e Deus sabe o esforço que fizemos para tirá-las daí". Isso foi confirmado em 1571 pelo franciscano André Thevet, também integrante da mesma expedição, ao descrever a tentativa de ocupação no livro La Cosmographie universelle.

 

Em 1578, Jean de Lery, membro da segunda expedição francesa enviada ao Rio de Janeiro (1557), com reforços para Villegaignon, dizia em Histoire d’um Voyage em terre de Brésil: “Pouco adiante da subida do rio (de Janeiro, barra da baía de Guanabara) há um rochedo raso, de 100 a 120 passos de circunferência, ao qual denominamos Ratier. À sua chegada, Villegaignon, depois de desembarcar alfaias e artilharia, pensou nele fortificar-se, mas a maré o expulsou dali. Constrangido a retirar-se, avançou quase uma légua em busca de terra e acabou por acomodar-se numa ilha antes deserta, onde, depois de desembarcar sua artilharia e demais bagagens, iniciou a construção de um forte (forte Coligny) a fim de garantir-se contra os portugueses que viajavam para o Brasil e aí já possuíam inúmeras fortalezas”.

 

Posteriormente, o padre José de Anchieta versejava sobre a mesma passagem: “Há uma ilha pequena no meio da vasta baía que o mar rodeia, de todas as partes, de ondas; cercam-na rochas e as praias do continente vizinho, donde saem as naus que vão para o oceano através de estreitas portas, as quais divide uma laje pela metade. Aí, outrora, construíram um forte os franceses: porém carregou-o a força das ondas”.  Na mesma época (1576), o historiador português Pero de Magalhães Gandavo, provedor da Fazenda na Bahia, de 1565 a 1570, referiu-se a excelente posição da ilhota de pedra para a defesa da cidade: “(...) a entrada, que é a parte mais estreita (da baía da Guanabara), tem apenas uma milha. No centro, ergue-se uma pequena ilha de 56 braças de comprimento por 26 de largura, na qual com facilidade se poderia construir um forte para a defesa do país (História da Província de Santa Cruz)”.

 

Apesar dos esforços visando a fortificação da ilha, prevaleceu a certeza de que a proximidade do mar e as condições atmosféricas mantinham em constante perigo os homens da guarnição e o armamento ali instalado, o que forçou o abandono de qualquer projeto nesse sentido. Somente em meados do século 17, época da invasão holandesa no nordeste brasileiro, se voltou a pensar nesse assunto como forma de repelir qualquer ataque que navios inimigos tentassem desfechar contra a cidade. Em novembro de 1646, os vereadores locais aprovaram o projeto que previa a angariação de recursos destinados ao custeio das obras, através de doações populares e venda dos terrenos devolutos situados na faixa litorânea entre a praia de Santa Luzia e o morro de São Bento (antiga rua Direita, hoje 1º de março). Esses trabalhos foram iniciados, mas somente em 1779 eles chegaram ao seu final graças ao interesse demonstrado pelo marquês do Lavradio.

 

Em 1896 novas obras de modernização foram iniciadas, delas constando a estrutura principal e a montagem das cúpulas. Os reparos terminaram em 1901, e dois anos depois, foram instalados na ilha pesados canhões de 240mm e 150mm, juntamente com canhões de 75mm. Em 1953, como forma de homenagear a Marinha de Guerra, o Exército alterou sua denominação de Forte da Lage para Forte Tamandaré, mas em 1997 a fortaleza foi desativada.

 

A fortaleza da Lage, durante o tempo em que esteve em atividade, foi palco e cenário de muitas passagens importantes da vida nacional. Afora as já relatadas, em 1836 serviu de prisão ao líder revolucionário farroupilha Bento Gonçalves da Silva e seu companheiro de armas, Pedro José de Almeida, o Pedro Boticário. Em 1892, juntamente com a fortaleza de Santa Cruz, participou de um levante militar contra o presidente Floriano Peixoto, liderado pelo segundo-sargento Silvino Honório de Macedo, mas logo sufocado. Em 1893, sofreu sérios danos quando da eclosão da Revolta da Armada. Além disso, nela também estiveram detidos vários personagens da história do Brasil, como José Bonifácio de Andrade e Silva e seus irmãos, Cipriano José Barata de Almeida e outros deputados, após o fechamento da Assembléia Constituinte, em 1823; o major Miguel de Frias e Vasconcelos, em 1831, protagonista do episódio conhecido como Tiros no Teatro; os quatro condenados à morte pelo crime da ilha da Caqueirada, em 1838, dos quais três se suicidaram em suas masmorras; o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos líderes da Revolução Liberal de 1842; o capitão Pedro Ivo Veloso da Silveira, líder militar da Revolução Praieira, que condenado à prisão perpétua dela se evadiu em 9 abril de 1851, em um escaler; e o poeta Olavo Bilac, nela detido por alguns meses de 1893, em virtude de críticas feitas ao presidente Floriano Peixoto.

 

 

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