Período colonial - 1630/1654 - DOMÍNIO HOLANDÊS (2)
Aproveitando o fato de que a guerra prolongada arruinara os senhores de engenho, a Companhia das Índias Ocidentais lhes fez diversas promessas tentadoras, e como eles estavam mais interessados em manter seus privilégios e sua posição econômica, sem a preocupação de ter que defender portugueses ou holandeses, foram aos poucos abandonando a resistência e entraram em acordo com os últimos, passando a dividir os lucros com os mesmos.
Mas as culturas de cana haviam sofrido muito com a guerra, e alguns engenhos tinham sido destruídos. Para que as suas atividades pudessem ser reiniciadas, a companhia emprestou dinheiro aos proprietários, enviou colonos e forneceu escravos negros revendidos com grande lucro (custavam de 12 a 75 florins na Guiné, e de 38 a 55 florins em Angola, mas eram entregues por preço que ia de 200 a 300 florins, cada um). Nassau fez de tudo para entender-se com os pernambucanos, melhorando as condições de conforto nas cidades e nos engenhos, introduzindo o urbanismo e outros elementos da cultura holandesa, e até mesmo a Igreja colaborou com ele, recebendo, por isso, territórios para a instalação de conventos.
Consolidado seu domínio, a companhia passou a cobrar as dívidas dos senhores de engenho, vendendo ou confiscando bens dos inadimplentes, e expulsando-os das terras. Desacostumada com esses métodos, a aristocracia rural decidiu retomar a luta contra os invasores, mas o reinício do confronto tornou-se difícil por falta de apoio econômico: Portugal, que recuperara a independência, firmara em 1640 uma trégua de dez anos com a Holanda. Antes disso, e confirmando a habilidade com que consolidara o domínio holandês, Nassau propusera uma fórmula conciliatória que poderia evitar a luta. Em seu Testamento Político ele afirmou: “Em relação aos senhores de engenho, convém proceder com mais brandura, examinando-lhes os frutos no começo da safra e concordando com eles sobre a parte que hão de entregar; no que se usará de moderação, de modo que eles não fiquem inteiramente privados dos meios necessários para porem a moer os engenhos no ano seguinte”.
A população livre também se mostrava revoltada contra os altos impostos cobrados pela companhia. Nassau recomendava no mesmo documento: "Devem V.Sas. abster-se de lançar novos impostos ou tributos, pois eles geram indisposições ao povo. O povo é um rebanho de carneiros que se tosquia, mas quando a tosquia vai até a carne, produz infalivelmente a dor e, como esses carneiros raciocinam, por isso mesmo se convertem muitas vezes em terríveis alimárias”. Mas seus conselhos não foram ouvidos, razão pela qual ele pediu demissão em 1643, regressando à Holanda em 1644. A partir daí, e durante anos, os holandeses enfrentaram seguidas agitações.
Como a companhia não cedia em suas exigências, o número de devedores crescia continuamente. Senhores de engenho e lavradores pobres iniciaram então a formação de alianças, mas quando os holandeses souberam disso, mandaram desarmar toda a população. Tarde demais, porque a rebelião já estava em preparo. O primeiro núcleo dos rebeldes se formou no Maranhão, em torno de André Vidal de Negreiros (ilustração), que reuniu os antigos guerrilheiros de Matias de Albuquerque. O grupo cresceu com a adesão de antigos aliados dos holandeses, entre eles João Fernandes Vieira, amigo de Nassau, e de imediato começou a juntar armas e munição e a fazer propaganda entre o povo. Em 3 de agosto os rebelados pernambucanos enfrentaram e venceram as tropas holandesas, erguendo em seguida outro acampamento, o Arraial Novo de Bom Jesus (localizado a cerca de oito quilômetros do centro histórico do Recife e de Olinda), de onde saíam os guerrilheiros que preparavam emboscadas aos holandeses, incendiavam culturas e destruíam engenhos. Com isso a situação dos flamengos foi piorando gradativamente, chegando a ponto de lhes faltarem alimentos.
A 15 de junho de 1646, João Fernandes Vieira escreveu uma carta a Dermont, comandante holandês de Itamaracá, na qual dizia: “Sem dúvida V.S. está a par da decisão em que se acham os habitantes deste país, de recobrar a sua liberdade. Para isso não lhes faltam meios, nem forças. Desejando, porém, o povo conseguir o seu objetivo sem efusão de sangue, achamos conveniente informá-lo que estamos prontos para atacar nesta ilha com todas as nossas forças, a menos que V.S. prefira chegar a um entendimento”.
Os holandeses não lhe deram resposta, mas mesmo recebendo reforços de seu país foram derrotados pelos pequenos grupos rebeldes que também contavam com armas e alimentos vindos da Inglaterra, cujos navios, fortemente armados, as embarcações flamengas não se atreviam a atacar. A situação dos invasores tornou-se crítica, pois sua metrópole, em guerra com os ingleses, foi deixando de enviar-lhes ajuda. Muitos colonos holandeses, temendo o serviço militar, retornaram à Europa, enfraquecendo a defesa da colônia, cujos defensores tentaram romper o cerco de Recife, que se tornou mais estreito com a vitória dos rebeldes na primeira batalha dos Guararapes, a 19 de abril de 1648. Mais adiante, a 19 de fevereiro do ano seguinte, nova vitória pernambucana na segunda batalha dos Guararapes.
Em dezembro de 1653 a Companhia Geral de Comércio, de Portugal enviou uma frota para ajudar os brasileiros, e ao se ver cercado por mar e por terra, o Recife holandês rendeu-se em 26 de janeiro de 1654, data em que os invasores assinaram o armistício de Campina da Taborda, colocando um ponto final no seu domínio de terras brasileiras. Assim, Portugal substituiu a Holanda no controle da colônia, monopolizando o comércio. Mas apesar disso, o sentimento nativista formado durante a luta contra os holandeses continuava presente.
“Sob a pressão externa – disse o historiador Capistrano de Abreu – operou-se uma solda entre os diversos elementos étnicos. Vencendo os flamengos, os pernambucanos sentiam-se um povo”.
Fonte: Enciclopédia Abril





