Período colonial - 1640 - EXPULSÃO DOS PADRES JESUITAS - Rio de Janeiro

A botada dos padres pra fora foi um movimento dos paulistas para expulsar os padres da Sociedade de Jesus do Colégio de São Paulo, no que foram imitados pelo povo do Rio de Janeiro, porque os religiosos queriam forçar o cumprimento de bulas recentes do papa Urbano VIII sobre a liberdade dos índios.

 

Em 2 de junho de 1640, povo e câmara de São Paulo intimaram o reitor dos jesuítas, padre Nicolau Botelho, a que ele e os religiosos de sua ordem se recolhessem ao colégio do Rio de Janeiro, dando-lhes seis dias de prazo para o cumprimento dessa determinação, o que foi feito em 13 de julho. Esse documento intimatório continha muitas assinaturas, entre elas as de Fernando de Camargo, Amador Bueno, o Velho, e Amador Bueno, o Moço; Bartolomeu Fernandes de Faria, José Ortiz de Camargo, Marcelino de Camargo, Francisco de Camargo; Manuel de Siqueira, João Maciel Baião, Simão Borges Cerqueira, Mateus Luís Grou, Bartolomeu de Quadros, Henrique da Cunha Lobo, Belchior de Borba, e outros mais, e fora motivado pela condenação ao cativeiro dos índios, que o padre Francisco Diaz Taño trouxera de Roma.

 

Este missionário chegara ao Brasil em abril de 1640, na qualidade de procurador dos índios e missionários do Paraguai e Tucumã, com a incumbência de executar o prescrito pela bula papal de 22 de abril de 1639.  Resultou daí que uma profunda agitação tomou conta do Rio de Janeiro. A Câmara, em nome do povo, opôs embargo à execução da bula. O superior jesuíta recebeu os moradores que o procuraram para apresentar suas reclamações, mas os padres, incitados por Diaz Taño e pelo visitador Pedro de Moura, exigiram o cumprimento da bula interpondo agravos aos embargos da Câmara. Durante os motins e arruaças que a partir daí ocorreram no Rio de Janeiro, os jesuítas foram apupados e apedrejados, seus escravos e índios maltratados, suas propriedades depredadas, o que os forçou a se recolherem ao Colégio. Essa agitação e protestos persistiram durante algumas semanas.

 

Segundo esclarece o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em História Geral da Civilização Brasileira, “possuir escravos índios constituía índice de abastança e de poder que seriam proporcionais ao número de 'peças' possuídas. O regime servil era o único então compreendido pela mentalidade dos colonos. De nada valiam as ordens promulgadas pela Coroa, garantindo a liberdade dos nativos (...), influenciadas pelos princípios jesuíticos de proteção ao índio. Seria permitida pelo rei a ‘guerra justa’, tornando-se legal somente a escravização do gentio que assaltasse portugueses e índios pacificados. A guerra justa, seria fácil provocá-la! Simples pretexto que se tornou letra morta entre os sertanistas de São Paulo. Assim, foram burladas todas as disposições da Coroa”.

 

Contra a escravização pura e simples levantavam-se os jesuítas, defensores intransigentes da integração social e econômica do índio através da catequese. Os conflitos entre jesuítas e colonos foram num crescendo por quase noventa anos, até culminarem com a botada dos padres fora, ou seja, com sua expulsão do território paulista, e com uma precoce tentativa de proclamação do Reino de São Paulo, que só não foi levada adiante porque o rei escolhido pelo povo, Amador Bueno da Ribeira (ilustração ao lado), recusou terminantemente a indicação.

 

Em 18 de junho de 1640 uma massa popular armada subiu o morro do Castelo, no Rio de Janeiro (primeira ilustração), para iniciar o assalto ao Colégio dos Jesuítas, forçando a intervenção pessoal do governador Salvador Correia de Sá e Benevides, que agindo como mediador conseguiu que em 22 de junho, no Colégio do Rio, os padres Francisco Diaz Taño, Pedro de Moura, visitador geral da Província do Brasil, José da Costa, reitor do Colégio do Rio, e Mateus Dias, procurador do mesmo colégio, em nome dos jesuítas, se reunissem com os capitães Aleixo Manuel, Diogo de Avila e João de Zeures, além do sargento-mor João Dantas, procuradores e oficiais da Câmara, em nome da municipalidade, quando então foi lavrada uma escritura de composição, feita pelo tabelião João Antônio Correia.

 

Os manifestantes de São Paulo ressentiram-se com o fato de no Rio de Janeiro ter sido acertada uma paz em separado, pois ela não incluía em seus termos nem São Vicente, nem São Paulo, e por isso em 13 de julho os jesuítas acabaram expulsos do Colégio em São Paulo, por pretenderem ver obedecido o breve do Papa sobre a liberdade dos índios. Contra os religiosos manifestaram-se os procuradores das câmaras de São Paulo, Itanhaém, Parnaíba, Mogi das Cruzes e São Vicente, e em decorrência dessa situação afastaram-se da vila o reitor, padre Nicolau Botelho, mais os padres Antônio Ferreira, Antônio de Mariz, Domingos Alves, alcunhado o Pucuí, Antônio Gonçalves e Lourenço Rodrigues.

 

Os paulistas resolveram enviar a Lisboa, para apresentar queixas, seus procuradores Baltazar Borba Gato, Luís da Costa Cabral e Amador Bueno, o Moço, os quais não deixariam de fazer acusações graves a Salvador Correia de Sá e Benevides. Encarniçados, os oficiais da Câmara de São Paulo a 21 de julho ainda resolveram, por requerimento do procurador do conselho, exigir do padre vigário Manuel Nunes que apresentasse os poderes pelos quais dispunha dos bens dos padres, e perguntar-lhe por que andava dizendo que o povo estava excomungado, e reclamar que não continuasse a celebrar missas a portas fechadas, “sob pena de o desquitarem da igreja e da vigararia da vara, visto que, se era procurador dos padres, não podia ser juiz eclesiástico (sic)”. Na corte, os vicentinos se queixaram dos jesuítas ao rei e representaram contra a proteção que lhes dava Salvador Correia de Sá e Benevides, mas o Conselho Ultramarino faria retornar ao Colégio os jesuítas expulsos, concedendo anistia, em 1647, a todos os que cumprissem as ordens reais referentes à liberdade dos índios no Brasil. Os jesuítas ficaram 13 anos no exílio, já que as pazes só aconteceram em 1653.

 

 

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