Período colonial - 1645 - BATALHA DA CASA FORTE - Pernambuco
O bairro da Casa Forte é hoje um dos mais tradicionais de Recife. No passado, século 16, sua área era ocupada por um engenho de açúcar pertencente a Diogo Gonçalves, que o construiu em terras situadas à esquerda do rio Capibaribe, doadas a ele por Duarte Coelho, primeiro donatário da capitania hereditária de Pernambuco e fundador de Olinda. Nesse terreno, as casas e a senzala, bem como a capela de Nossa Senhora das Necessidades e a sede da propriedade, foram erguidas numa campina onde hoje se situa a praça da Casa Forte (ilustração), um dos locais mais aprazíveis da capital pernambucana.
Depois de Diogo Gonçalves, que batizara seu engenho com o nome de Isabel Gonçalves, a propriedade passou pelas mãos de vários donos, razão pela qual também ganhou outras denominações, entre elas a de Dona Anna Paes. Foi nesse lugar que em 17 de agosto de 1645 as tropas holandesas, derrotadas dias antes (em 03 de agosto) na batalha do Monte das Tabocas, sofreram novo revés diante das forças pernambucanas lideradas por João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Antônio Dias Cardoso e Felipe Camarão.
Os relatos da época esclarecem que quando os soldados holandeses chegaram a Recife, acamparam no engenho Anna Paes porque precisavam descansar da marcha batida em que haviam efetuado sua retirada das Tabocas, distante da capital da província cerca de cinqüenta quilômetros, aproximadamente. Nem bem chegaram e o coronel Hendrick van Haus, comandante a tropa derrotada, ordenou a um seu subordinado, o major Blaer, que se dirigisse com um destacamento ao povoado da Várzea, naquelas proximidades, a fim de revistar as casas lá existentes e prender as mulheres e familiares dos revoltosos que ali residiam. Isso foi feito no dia 16 pela manhã, e à tarde, quando o destacamento regressou, trouxe consigo várias prisioneiras, entre elas Isabel de Góis, mulher de Antônio Bezerra; Ana Bezerra, sogra de João Fernandes Vieira, e Maria Luíza de Oliveira, mulher de Amaro Lopes, que foram encarceradas na casa-grande do engenho.
A notícia desse aprisionamento chegou ao conhecimento do exército pernambucano bem mais cedo do que se poderia esperar. Este se encontrava estacionado ali bem perto, em uma grande extensão de terra existente na margem esquerda do rio Teijipió, não muito distante de Recife. Sabedores do ocorrido, a reação desses homens foi imediata. Reunidos por seus líderes, eles partiram incontinenti para resgatar as mulheres aprisionadas, marchando à noite e sob chuva pesada, superando a escuridão e as más condições do caminho, até que atravessaram o rio Capibaribe no lugar conhecido como Cordeiro, e cercaram o engenho Anna Paes na manhã do dia 17 de agosto.
Surpreendidos, os holandeses buscaram refúgio na casa-grande. Por ordem do coronel Haus eles escancararam as janelas e nelas colocaram as mulheres que haviam capturado, para que seus adversários as vissem e pensassem duas vezes antes de atacar. Nessa altura dos acontecimentos os brasileiros cometeram o engano de achar que aquela providência seria um sinal de capitulação, e por isso autorizaram um de seus homens a ir ao encontro dos adversários a fim de negociar a rendição. Mas ele foi assassinado diante dos seus companheiros de tropa, que indignados com a covardia daquele ato partiram para o assalto final com tamanha fúria que em pouco tempo, só pensando em vingança, chegaram à casa-grande e a incendiaram, esquecidos de que em seu interior também se encontravam as mulheres de alguns de seus irmãos em armas. Depois disso, não demorou muito para que o chefe flamengo, ao se sentir sufocado pela fumaça, abrisse a porta principal e saísse acenando uma bandeira branca e segurando o cabo de uma pistola, sinal de que ele e seus homens se entregavam.
Dos relatos sobre essa passagem consta a informação de que a derrota na batalha da Casa Forte, como ficou sendo conhecida, custou aos holandeses 37 mortos, mais de 300 homens aprisionados, entre eles vários oficiais, além da perda de grande quantidade de armas, cavalos e víveres. Quanto aos pernambucanos, cujas baixas foram pequenas, eles libertaram as reféns e levaram seus feridos para os engenhos de Apipucos e São João da Várzea. Os prisioneiros holandeses foram levados para a Bahia, enquanto o coronel Hendrick van Haus, que havia sido enviado para Portugal (e depois Holanda), retornou posteriormente a Pernambuco, sendo morto na primeira batalha dos Guararapes, em 19 de abril de 1648.
Sobre o mestre-de-campo Antônio Dias Cardoso, um dos líderes pernambucanos, diz o Exército Brasileiro, em www.exercito.gov.br, que “Infelizmente, não existem registros acerca da genealogia de Dias Cardoso, até há pouco relegado a um injusto semi-anonimato histórico, não condizente com os tantos e tamanhos serviços por ele prestados à Pátria nascente, quando de nossa proto-história”. Mas referindo-se à participação do referido personagem nas ações armadas realizadas contra os invasores holandeses, o site esclarece que:
“- nas batalhas do Monte das Tabocas e da Casa Forte, em 1645, o Sargento-Mor Dias Cardoso foi o lídimo condutor de um recém-formado e ‘pequeno exército’, o qual derrota o inimigo, mais poderoso e adestrado, pelo que Fernandes Vieira o considerou ‘o maior responsável pelas vitórias obtidas’. No Monte das Tabocas, consegue atrair os holandeses para três emboscadas, quando estes tentavam conquistar a elevação, desencadeando, a seguir, um terrível contra-ataque, morro abaixo, que os põe em desabalada fuga. Em Casa Forte, coube a Dias Cardoso o comando da vanguarda que derrota o Coronel Van Haus, Comandante-Geral das tropas batavas no Nordeste”.





