Antônio Maria - CONSIDERAÇÕES SOBRE O SONO

- A pessoa que dorme está inteiramente só. 

 

- Quando o homem dorme, o seu rosto se desmarca de todas as tramas e de todos os desgostos.

 

- Nada enternece mais uma mulher que o rosto do amante, dormindo.

 

- Ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele lhe vinha dizendo ou dando a entender.

 

- É quando a gente se parece menos com os mortos... é quando se está dormindo.

 

- Quanto mais pobre mais comovente o ser humano que dorme. 

 

- No sono, a imobilidade das pessoas boas e confiantes é sempre desarrumada.

 

- Gente má dorme em posição de sentido.

 

- Cada travesseiro tem um lugar e uma importância definidos na vigência do sono.

 

- Não há nenhum abandono casual, nas pernas, nos braços ou na cabeça de quem dorme, porque o corpo realiza, desde que haja espaço, sua única posição realmente confortável.

 

- Experimente descobrir na mulher que dorme a seu lado um ser infinitamente decente, muito além de sua capacidade de fazer-lhe uma razoável justiça.

 

- Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

 

- Quanta luz nos corpos despidos das mulheres claras!

 

- Seria uma demasia de requinte ou de louvação, fazê-las dormir sobre lençóis negros?  

 

- A mais leve carícia de sua mão sobre o corpo da amada que dorme poderá quebrar a solidão do sono e a tranqüilidade da carne já não seria completa (contente-se em enternecer-se, sem tocá-la).

 

- Se for preciso despertá-la, que seja com ruídos aparentemente casuais.

 

- Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

 

- A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens. 


- Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança. 

 

- Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

 

- Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes.

 

 

Rio, 17/01/1956

 

 

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