Patativa do Assaré - ALCO E A GASOLINA
ALCO E A GASOLINA
Patativa de Assaré
Neste mundo de pecado / Ninguém qué vivê sozinho / Quem viaja acompanhado / Incurta mais o caminho / Tudo que no mundo existe / Se achando sozinho e triste, / O alco vivia só / Sem ninguém lhe querê bem / E a gasolina também / Vivia no caritó.
O alco tanto sofreu / Sua dura e triste sina / Até que um dia ofreceu / Seu amô a gasolina / Perguntou se ela queria / Ele em sua companhia, / Pois andava aperriado / Era grande o padecê / Não podia mais vivê / Sem companhêra ao seu lado.
Disse ela: dou-lhe a resposta / Mas fazendo uma proposta / Sei que de mim você gosta / E eu não lhe acho tão feio / Porém eu sou moça fina, / Sou a prenda gasolina / Bem recatada, granfina / E gosto muito de asseio.
Se você não é nojento / É grande o contentamento / E tarvez meu sofrimento / Da solidão eu arranque, / Nós não vamo nem casá / Do jeito que o mundo tá / Nós dois vamo é se juntá / E morá dentro do tanque.
Se quisé me acompanhá / No tanque vamo morá / E os apusento zelá / Com carinho e com amô, / Porém lhe dou um conseio / Não vá fazê papé feio / Quero limpeza e asseio / Dentro do carburadô.
Se o meu amô armeja / E andá comigo deseja, / É necessaro que seja / Limpo, zeladô e esperto, / Precisa se controlá, / Veja que eu sou minerá / E você é vegetá, / Será que isto vai dá certo?
Disse o alco: meu benzinho / Eu não quero é tá sozinho / Pra gozá do teu carinho / Todo sacrifiço faço,/ Na nossa nova aliança / Disponha de confiança / Com a minha substança / Eu subo até no espaço.
Quero é sê feliz agora / Morá onde você mora / Andá pelo mundo afora / E a minha vida gozá, / Entre nós não há desorde / Basta que você concorde / Nós se junta com as orde / Da senhora Petrobá.
Tudo o alco prometia. / Queria por que queria / Na Petrobá neste dia / Houve uma festa danada / A Petrobá ordenou / Um ao outro se entregou / E o querozene chorou / Vendo a parenta amigada.
Porém depois de algum dia / Começou grande narquia, / O que o alco prometia / Sem sentimento negou, / Fez uma ação traiçoêra / Com a sua companhêra / Fazendo a maió sugêra / Dentro do carboradô.
Fez o alco uma ruína / Prometeu a gasolina / Que seguia a diciprina / Mas não quis lhe
obedecê / Como o cabra embriagado / Descuidado e deslêxado / Dêxava tudo melado, / Agúia, bóia e giclê.
A gasolina falava / E a ele aconceiava,/ Mas o alco não ligava,/ Inxia o saco a zombá / Lhe respondendo, eu não ligo, / Se achá que vivê comigo / Tá sendo grande castigo / Se quêxe da Petrobá.
E assim ele permanece / No carro a tudo aborrece, / Se a gasolina padece / O chofé também se atrasa / Hoje o alco veve assim / Do jeito do cabra ruim / Que bebe no butiquim / E vai vomitá na casa.





